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Setembro amarelo: o mês de prevenção do suicídio



Depressão é o principal fator que leva uma pessoa a cometer suicídio. Saiba como identificá-la

Setembro Amarelo é uma campanha nacional de conscientização sobre a prevenção do suicídio, com o objetivo de alertar a população a respeito da realidade do suicídio no Brasil e no mundo e suas formas de prevenção.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 300 milhões de pessoas, de todas as idades, sofram com depressão, considerada a principal causa que leva uma pessoa a cometer suicídio.

Para ajudar a identificar um quadro depressivo e quais ações devem ser tomadas após o diagnóstico, entrevistamos Antônio Geraldo da Silva, coordenador nacional da campanha Setembro Amarelo.

Ele é médico psiquiatra, doutorando pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Portugal), presidente eleito da Associação Psiquiátrica da América Latina (APAL), diretor tesoureiro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e editor da revista Debates em Psiquiatria e do jornal Psiquiatria Hoje.

POLIEDRO – Faz quanto tempo que você coordena a campanha nacional Setembro Amarelo e quais são as principais ações realizadas durante a campanha?

AG – Estou à frente das ações da campanha Setembro Amarelo desde o seu início no Brasil, em 2014. Seu principal objetivo é trazer à discussão um assunto que é, muitas vezes, esquecido, mas que precisa ser abordado: o suicídio e sua prevenção. Durante a campanha, as federadas da ABP realizam palestras, concedem entrevistas sobre o tema, organizam caminhadas e passeatas com mobilização da população.

POLIEDRO – Os casos de suicídio estão associados a distúrbios mentais – 36% tinham depressão. Estima-se que mais de 300 milhões de pessoas sofram com esse transtorno. Existe um diagnóstico que aponte os motivos pelos quais as pessoas estão mais depressivas?

AG – A depressão é resultado de uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Há a predisposição genética para o aparecimento do transtorno, mas é necessário que o indivíduo seja exposto a determinadas condições ambientais, como contexto familiar, estresse no trabalho, entre outros, para que a depressão se desenvolva.

Segundo a OMS, em relatório publicado no ano passado, o risco de se tornar depressivo está relacionado a pobreza, desemprego, eventos da vida, como perda de entes queridos ou final de relacionamentos, doenças físicas e problemas causados pelo uso de álcool e outras drogas.

POLIEDRO – Como se inicia o processo depressivo? Existem alguns passos, ou fases, já pré-identificados no processo de depressão que leva ao suicídio?

AG – Um dos principais sintomas da depressão é a tristeza prolongada. É normal nos sentirmos tristes em situações específicas da vida, como a perda de um familiar ou amigo. Entretanto, se esse sentimento persiste de forma intensa por mais de duas semanas, merece uma atenção especial. Se essa tristeza vier acompanhada de alterações no apetite e sono, além de falta de vontade de realizar atividades que antes eram consideradas prazerosas, é necessário iniciar o acompanhamento médico psiquiátrico.

Se além desses sinais a pessoa começar a falar sobre morte ou, ainda, demonstrar sentimento de desesperança, pode estar com ideação suicida. “Eu queria sumir”, “a vida não faz sentido”, demonstram que o indivíduo pode já ter pensado ou estar pensando em suicídio. Devemos levá-lo para avaliação psiquiátrica a fim de que o psiquiatra possa iniciar o tratamento corretamente.

POLIEDRO – Como a pessoa pode descobrir que está entrando em um processo de depressão?

AG – Se os sintomas da resposta anterior forem percebidos pela própria pessoa ou por familiares e amigos, está na hora de buscar ajuda. Na dúvida, procure um psiquiatra para uma conversa inicial e avaliação. Quanto mais cedo for identificada a depressão e iniciado o tratamento adequado, melhor para o paciente.

POLIEDRO – No documentário sobre os casos de suicídio na ponte Golden Gate, foram mostrados descaso e despreparo da maioria das famílias em lidar com a pessoa. Qual deve ser o papel da família nesse processo?

AG – A família deve, sempre que possível, atuar na identificação desses sintomas iniciais, buscando a intervenção precoce no quadro. Novamente, quanto mais cedo for iniciado o acompanhamento e tratamento adequado, menor a possibilidade de morte por suicídio e melhor para o paciente.

POLIEDRO – No Brasil, o número de quadros depressivos cresceu 705% em 16 anos. Os jovens são os mais atingidos. Qual deve ser o papel da escola no combate contra a depressão?

AG – A escola, assim como a família, está inserida no contexto social do indivíduo. É preciso que sejam desenvolvidas atividades psico-educativas, ou seja, que abordem a importância de cuidar da saúde mental e de como prevenir os transtornos mentais e o suicídio. No que concerne a professores e ao corpo diretivo, é necessário estar atento ao comportamento dos estudantes para que seja identificada tão rápido quanto possível qualquer mudança comportamental que denote transtorno psiquiátrico. Após essa identificação, tentar atuar ao máximo em conjunto com os responsáveis do aluno em questão para que as providências corretas possam ser tomadas.

POLIEDRO – Um relatório da Organização Mundial da Saúde, no ano 2000, já previa que 15% da força de trabalho mundial abandonaria seus postos por motivos relacionados à depressão. De que forma as empresas podem ajudar?

AG – Assim como a escola, as empresas também precisam atentar para a saúde mental de seus colaboradores. As ações de psicoeducação podem e devem ser adequadas ao público do ambiente em que se pretende aplicá-las, visando, entre outros aspectos, à diminuição do estigma que se relaciona com a psiquiatria e saúde mental. Quanto maior a naturalidade com que tratarmos desses assuntos relacionados ao bem-estar e à saúde mental, menos constrangidas as pessoas se sentirão a falar sobre esses temas e, consequentemente, para procurar a ajuda adequada e tão necessária.

POLIEDRO – Gostaria de acrescentar mais alguma informação?

AG – Um dos maiores obstáculos que temos para tratamento dos transtornos psiquiátricos é o preconceito, que, neste caso, chamamos de psicofobia. Combater a psicofobia deve ser uma tarefa de todos, para que possamos incentivar a busca pelo tratamento do transtorno mental e, com isso, salvar vidas.

 

Utilidade pública

O Centro de Valorização da Vida (CVV), uma das instituições que mais atuam sobre essa questão, disponibiliza em seu site materiais com informações importantes sobre o tema e que mostram caminhos para a ajuda e prevenção: www.cvv.org.br/conheca-mais/

O CVV atende voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail ou chat 24 horas todos os dias.




18/09/2018